segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Quem tem medo das olimpíadas científicas?

Aqueles que acompanham mais de perto a minha trajetória como professor sabem que, desde 2014, eu participo da Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB) como orientador de equipes. Ao longo de todos estes anos, eu já tive a oportunidade de ir a 4 Semifinais e a 3 Finais da ONHB, orientar dezenas de equipes na olimpíada, escrever/publicar um artigo científico sobre a competição e falar sobre a ONHB em eventos acadêmicos. E mesmo depois de tudo isso, algumas pessoas continuam me perguntando: Afinal, por que participar de uma olimpíada científica como a ONHB?

Sejamos francos, muitos professores das escolas brasileiras não são exatamente grandes fãs das olimpíadas científicas. Muitos reclamam do pouco interesse dos alunos por esses eventos, outros lembram que não possuem condições adequadas de trabalho para participar, alguns não desejam ter a qualidade do seu trabalho avaliada a partir do desempenho dos estudantes nessas competições e outros tantos insistem em criticar as olimpíadas científicas pelo fato de elas supostamente estimularem uma exagerada disputa entre os estudantes, o que seria prejudicial ao ambiente escolar e à própria formação humana dos alunos.

Na condição de professor da educação básica há mais de uma década, tenho a convicção de que não existem dinâmicas de ensino e aprendizagem que sejam perfeitas, e com as olimpíadas científicas não é diferente. Como quase tudo na vida, há “prós” e “contras” no que tange a essas competições. Mas, a partir da experiência acumulada nos últimos anos, eu acredito que é necessário fazer uma reflexão livre de estereótipos a respeito do assunto.

Uma primeira visão a ser desconstruída é a de que os alunos não se interessam por olimpíadas científicas. Até hoje, ao longo da minha carreira como professor, eu pude trabalhar tanto na rede estadual de ensino de Minas Gerais quanto na rede federal de educação profissional, científica e tecnológica. De fato, as realidades das escolas pelas quais eu já passei são bastante diferentes, mas o que eu quero destacar é que, desde 2014, eu sempre encontrei alunos interessados em participar da ONHB. É claro que em alguns anos o número de alunos interessados foi maior do que em outros, mas sempre tive a oportunidade de contar com tais alunos. Muitos professores reclamam do pouco interesse dos estudantes em olimpíadas científicas, mas boa parte desses mesmos professores também não se esforça para divulgar e incentivar a participação dos seus alunos nesses eventos. Aqui cabe a pergunta: Como o aluno vai ter interesse em participar de uma olimpíada científica se o seu professor nunca falou sobre o assunto? Não quero colocar toda a responsabilidade nas costas dos professores – tendo conhecimento e experiência sobre como é a profissão docente em nosso país, eu jamais faria isso –, mesmo porque alunos sem interesse em estudar realmente existem. Todavia, não podemos ignorar o fato de que muitos professores ainda precisam fazer uma autocrítica sobre a sua forma de trabalho antes de reclamar do “baixo interesse” dos estudantes em participar de olimpíadas científicas.

Outra visão que também precisa ser desconstruída é a de que as olimpíadas científicas são ruins porque estimulam uma disputa exagerada entre os alunos, ensejando uma cultura de individualismo e competição naquilo que seria uma verdadeira ode à meritocracia. Sabemos que o discurso “liberal-capitalista” acerca do conceito de “meritocracia” é bastante problemático, sobretudo quando vemos na internet coaches, gurus e influenciadores digitais afirmando de maneira simplista que “só basta se esforçar para vencer na vida” e que, em uma disputa, é sempre o “melhor” quem vence. Ora, sabemos que tal concepção de “meritocracia” é bastante questionável porque ignora a complexidade da realidade social, econômica, histórica, política e cultural vivenciada por cada indivíduo. Porém, temos que ter em mente que, embora seja possível tecer críticas a tal concepção de “meritocracia”, isso não significa que devamos enxergar o ato de competir “em si” como algo necessariamente ruim ou que sempre leva a uma cultura de individualismo. Afinal, é justamente o ato de “competir” que muitas vezes nos instiga a alcançar nossos objetivos a partir do nosso próprio esforço, o que está longe de ser algo negativo para as nossas vidas.

Infelizmente, há no Ocidente uma tradição de pensamento que se baseia em um constante binarismo que divide tudo em dicotomias como “certo-errado”, “bonito-feio”, “bom-mau”, “civilização-barbárie”. O problema de tal linha de raciocínio é que, quando se fala em “competição”, muitas vezes as pessoas acreditam que se trata de algo que seria o completo oposto da “colaboração”, o que não é verdade. O fato é que “competição” e “colaboração” não são necessariamente “inimigas eternas” uma da outra. Muito pelo contrário, “competição” e “colaboração” podem coexistir em muitos momentos, como tão bem mostra a minha própria experiência como professor orientador de equipes na Olimpíada de História. Ao longo dos últimos anos, durante várias edições da Olimpíada, eu pude ajudar e receber a ajuda de vários outros professores orientadores de equipes que trabalhavam em outras instituições de ensino. Também pude ver, por várias vezes, estudantes de equipes diferentes ajudando uns aos outros durante a realização das provas da ONHB. Estes são exemplos que mostram que a “competição” não necessariamente leva ao “individualismo”, mas que o ato de “competir” pode ser perfeitamente compatível com uma cultura de “colaboração” e “solidariedade”.

Sabemos que falta a muitas pessoas a maturidade necessária para participar de competições de uma maneira mais “saudável”. Constantemente vemos pessoas que, em contextos de competição, optam por tratar os seus “adversários” como se fossem verdadeiros “inimigos mortais”, até mesmo ignorando princípios e valores éticos fundamentais durante a disputa com “o outro”. No caso das olimpíadas científicas, infelizmente, temos observado diversas instituições de ensino, sobretudo aquelas ligadas à iniciativa privada, investindo pesado em tais competições como uma forma de fazer o seu marketing e atrair novos estudantes, que são vistos por essas instituições como verdadeiros “clientes” em um negócio cujo único objetivo é o lucro e não a formação humana das novas gerações. Não poucas vezes, professores e escolas usam de estratégias desonestas para garantir os bons resultados dos seus alunos em olimpíadas científicas, o que é uma prática inaceitável e que merece ser alvo de críticas. Na própria Olimpíada de História, durante as fases online da competição, temos acompanhado relatos acerca de professores que literalmente entregam as respostas prontas para os alunos apenas para ter muitas equipes alcançando a Fase Final da ONHB, de modo a fazer a melhor propaganda possível das suas escolas, o que é um verdadeiro absurdo. 

É realmente lamentável que muitas olimpíadas científicas venham sendo tratadas como verdadeiras “guerras escolares” onde muitos deixam a ética de lado em nome da “vitória”. Todavia, isso tem ocorrido não como uma consequência “natural” da existência da competição “em si”, mas em função da forma como alguns professores e instituições de ensino têm lidado com as olimpíadas científicas. A participação nesse tipo de evento não deve jamais ser baseada na busca pela vitória “a qualquer custo”, mas sim no genuíno interesse pela construção do conhecimento. E neste aspecto o papel do professor é fundamental, pois é ele quem deve atuar como um mediador no processo de ensino-aprendizagem dos estudantes durante a participação nessas competições. Cabe ao professor auxiliar os alunos na compreensão de que o mais importante ao se participar de olimpíadas científicas não é simplesmente ganhar prêmios/medalhas, mas sim construir novos conhecimentos. Se muitos professores ainda não compreenderam isso, talvez ainda seja necessário, com disse uma vez Edgar Morin, “educar os educadores” para que a cultura do individualismo e da busca pela vitória “a qualquer custo” não floresça em nossas escolas.

Sabemos que, em muitas escolas brasileiras, os professores não se sentem confortáveis para participar de olimpíadas científicas. As lacunas na formação inicial e continuada dos docentes, as péssimas condições de trabalho dos professores e os inúmeros problemas na infraestrutura das escolas – em especial das escolas públicas – são fatores que dificultam a rotina do professor. Em meio a tantas dificuldades, é natural que muitos professores não tenham nem vontade nem condições de participar de olimpíadas científicas. Constantemente questionado e desrespeitado pela sociedade, o professor brasileiro muitas vezes não aceita facilmente que o seu trabalho e o aprendizado dos seus alunos sejam avaliados de outras formas para além dos métodos mais “tradicionais”. Muitos docentes não gostam da ideia de que os seus alunos participem de olimpíadas científicas porque temem que os resultados nessas competições sejam prejudiciais para a sua imagem e para a imagem das instituições nas quais trabalham. A situação é ainda mais delicada no caso de muitas escolas públicas que, em função de uma série de dificuldades de ordem material, estrutural e financeira, simplesmente não possuem condições de disputar olimpíadas científicas de igual para igual com certas instituições particulares de ensino. Em muitas escolas é até comum ouvirmos frases como: “Não adianta incentivar meus alunos a participarem dessa olimpíada porque eu já sei que eles vão se sair mal”.

No caso da própria ONHB, o que temos observado ao longo das suas últimas edições é que boa parte das medalhas de ouro, prata e bronze na competição têm sido conquistadas justamente por equipes oriundas de colégios particulares que possuem muito mais condições de participar da Olimpíada de História do que a maioria das escolas públicas. Apenas para se ter uma ideia da tamanha diferença entre o desempenho das escolas particulares e o das escolas públicas na ONHB, vale registrar que, entre as equipes finalistas da ONHB 2023 pertencentes ao estado de Minas Gerais, por exemplo, metade delas era oriunda de um único colégio particular localizado na cidade de Ipatinga-MG. Vale ressaltar que situações como essa também se repetiram em outros estados brasileiros quando da classificação para a Grande Final da ONHB 2023, o que reforça a percepção de que há uma enorme desigualdade entre as instituições públicas e particulares de ensino no Brasil. Não sejamos, portanto, ingênuos no que tange às olimpíadas científicas: nem todas as escolas possuem as mesmas condições para participar desses eventos. 

Mas se as condições de disputa nas olimpíadas científicas estão longe de serem justas e iguais para todos, por que então os professores deveriam incentivar os seus alunos a participarem dessas competições? Acredito que, apesar das dificuldades enfrentadas por muitas escolas públicas para participar de olimpíadas científicas, tal participação é fundamental para a renovação das práticas pedagógicas desenvolvidas nestas escolas. Por serem atividades desafiadoras e até mesmo mais lúdicas do que muitas das atividades realizadas cotidianamente nos espaços escolares, as olimpíadas científicas têm o potencial de estimular nos alunos a curiosidade e o maior interesse pelos estudos, o que já é muito importante quando se pensa na necessidade de melhorar o desempenho escolar das novas gerações. As questões e tarefas da Olimpíada Nacional em História do Brasil, por exemplo, estimulam a leitura de diversos documentos históricos, a reflexão crítica sobre a História do Brasil, bem como a participação ativa dos próprios alunos na construção do conhecimento histórico por meio da realização de pesquisas, debates e do trabalho em equipe.

Ademais, não podemos nos esquecer que a competição e a busca pelo mérito próprio fazem parte da vida de todos nós. Pensemos nos exames vestibulares, nos processos seletivos para a ocupação de vagas no mundo do trabalho, no fato de muitas pessoas gostarem de acompanhar campeonatos esportivos, nos concursos públicos etc. Poderíamos aqui multiplicar a lista de exemplos apenas para enfatizar que todos nós, em algum momento da vida, vamos estar envolvidos em algum tipo de “competição” ou “disputa”. Ora, é justamente ao participar de uma competição que nos sentimos desafiados e muitas vezes somos levados a nos esforçar para melhorar nosso desempenho, seja nos estudos, no esporte ou na vida profissional. E que sensação maravilhosa é constatar que conseguimos alcançar um determinado resultado a partir do nosso próprio mérito e da nossa dedicação! Não estou sugerindo que devamos buscar isso apenas por meio de “competições”, mas que o ato de “competir” pode proporcionar a oportunidade de melhorarmos enquanto pessoas e aprimorarmos nossas competências e habilidades.

A busca por bons resultados em olimpíadas científicas possui, portanto, um inegável e relevante aspecto motivacional para professores e alunos, pois a participação nessas competições pode contribuir enormemente para que docentes e discentes busquem cada vez mais a melhoria na qualidade da educação ofertada nas escolas. E isso é algo fundamental principalmente para as escolas públicas, uma vez que elas têm sido tão desvalorizadas por parte dos nossos governantes e da nossa sociedade. Se queremos mostrar que a educação pública pode e deve sim ter qualidade, a busca por bons resultados em olimpíadas científicas é um interessante caminho a seguir para que consigamos alcançar tal objetivo. Não estou sugerindo que só é possível obter e mostrar uma maior qualidade da educação a partir da participação em olimpíadas científicas, afinal, os resultados obtidos nessas competições não devem jamais ser analisados de maneira isolada, mas em conjunto com outros fatores atinentes ao ambiente escolar. O que eu quero enfatizar é que não podemos mais fechar os olhos para o papel que pode ser exercido pelas olimpíadas científicas nas nossas escolas.

Em meio a um cenário tão desafiador para a educação no mundo contemporâneo, é preciso abandonar certos estereótipos, sair da zona de conforto e encarar o desafio de participar de competições como as olimpíadas científicas. O que aprendi por meio da minha experiência própria com a ONHB é que orientar alunos em competições desse tipo nem sempre é fácil e que tal prática só pode ser executada com qualidade se houver condições adequadas de trabalho, apoio por parte das instituições de ensino e muita força de vontade por parte de professores e alunos. Todavia, apesar das dificuldades nesse processo, as recompensas podem ser muitas, e não estou me referindo apenas a prêmios/medalhas, mas sim a tudo aquilo relacionado ao que é mais fundamental nas nossas escolas: a construção coletiva do conhecimento. 

Certamente, as olimpíadas científicas não são perfeitas, e muito poderia ser feito para melhorá-las e torná-las mais “justas” e compatíveis com a enorme diversidade de situações existentes nas escolas brasileiras. Mas se recusar a participar de tais competições em função dos seus aspectos “problemáticos” e “polêmicos” não é o melhor caminho, uma vez que isso seria o mesmo que jogar fora a criança junto com a água suja do banho. As olimpíadas científicas podem abrir um mundo de possibilidades para a educação brasileira, e já passou da hora de muitas pessoas finalmente perderem o medo de participar dessas competições.


Prof. Dr. Rodrigo Francisco Dias

29 de janeiro de 2024




segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Algumas perguntas e respostas sobre a Independência do Brasil

O QUE ACONTECEU DE IMPORTANTE NO DIA 07 DE SETEMBRO DE 1822 PARA O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL?

Provavelmente, nada. Nos documentos históricos datados do ano de 1822, tais como jornais, cartas, documentos oficiais etc., nenhum acontecimento realmente importante para o processo de Independência do Brasil é citado como tendo acontecido nesta data. Nem mesmo o famoso “Grito do Ipiranga”, episódio que muitos dizem que ocorreu no dia 07 de setembro de 1822, é citado nos documentos históricos daquele ano. O dia 07 de setembro de 1822 só se tornou um marco simbólico da Independência do Brasil a partir de uma narrativa que foi construída posteriormente para exaltar a figura de D. Pedro I.


ENTÃO, NO ANO DE 1822, QUAIS OUTRAS DATAS FORAM CONSIDERADAS IMPORTANTES PARA A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL?

Ao longo do ano de 1822, algumas datas realmente consideradas importantes para o processo de Independência do Brasil foram:

09/01/1822: o “Dia do Fico”, em que D. Pedro declarou que iria permanecer no Brasil;

04/05/1822: o dia em que um Decreto determinou que qualquer ordem vinda de Portugal só seria obedecida no Brasil após o “Cumpra-se” de D. Pedro;

13/05/1822: o dia em que D. Pedro recebeu o título de “protetor e defensor perpétuo do Brasil”;

03/06/1822: o dia em que houve a convocação de uma Assembleia Constituinte para o Brasil;

01/08/1822: o dia em que as tropas vindas de Portugal foram declaradas inimigas do Brasil;

06/08/1822: o dia da publicação do Manifesto aos Governos e Nações Amigas, em que se pedia apoio à Independência do Brasil;

12/10/1822: o dia da aclamação de D. Pedro I como imperador do Brasil;

01/12/1822: o dia da coroação e sagração do imperador D. Pedro I.


O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL ACONTECEU DE MANEIRA PACÍFICA E SEM NENHUM TIPO DE CONFLITO ARMADO?

Não. Ao contrário do que muita gente acredita até hoje, o processo de Independência do Brasil não aconteceu de maneira pacífica. Na época, nem todas as pessoas que viviam na América Portuguesa defendiam a completa Independência do Brasil em relação a Portugal. Vários soldados portugueses que viviam no Brasil, por exemplo, foram contra a Independência do Brasil porque continuavam fiéis a Portugal. Tal fato gerou inúmeros conflitos armados em várias regiões, tais como: Maranhão, Ceará, Grão-Pará, Província Cisplatina, Piauí e Bahia. Na Bahia, por exemplo, os conflitos duraram até 1823.

Além disso, para se melhor compreender o processo de Independência do Brasil, é preciso analisar o contexto histórico mais amplo. Dessa maneira, é possível identificar diversos episódios de violência ocorridos na época, como as guerras empreendidas pelas autoridades contra vários povos indígenas e os atos de violência praticados contra os negros escravizados que viviam no Brasil. Também vale lembrar os conflitos armados ocorridos no âmbito da Revolução de 1817, em Pernambuco, e no âmbito das disputas pelo controle da Banda Oriental (região que se tornaria a Província Cisplatina, atual Uruguai).


NA ÉPOCA, TODAS AS PESSOAS QUE VIVIAM NO BRASIL ACEITARAM DE IMEDIATO QUE D. PEDRO I GOVERNASSE O PAÍS?

Não, nem todo mundo que vivia no Brasil na época do processo de Independência aceitou de imediato que D. Pedro I governasse o país. Na província do Grão-Pará, situada na região amazônica, por exemplo, soldados de baixa patente, pequenos trabalhadores, indígenas e negros escravizados não aceitaram se submeter ao governo de D. Pedro I e acabaram se rebelando. O imperador precisou fazer uso de forças militares para anexar a região, reprimindo violentamente os rebeldes e garantindo que o Grão-Pará passasse finalmente a fazer parte do novo Império a partir do ano de 1823.

Já na província de Minas Gerais, membros das elites locais liderados pelo tenente-coronel José Maria Pinto Peixoto – comandante das Armas de Minas Gerais – instalaram em Vila Rica (atual Ouro Preto) uma Junta Governativa que pretendia garantir a autonomia da região tanto em relação às Cortes de Lisboa quanto em relação a D. Pedro. Para garantir o apoio de Minas Gerais ao seu governo, D. Pedro precisou viajar até a província no final de março de 1822 para dialogar pessoalmente com as lideranças locais e convencê-las a lhe dar apoio político, o que acabou acontecendo após as negociações.


D. PEDRO I FOI O ÚNICO RESPONSÁVEL NA ÉPOCA PELO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL?

Embora muitas pessoas ainda acreditem que D. Pedro I foi o único responsável pela Independência do Brasil, a verdade é que ele não agiu sozinho. Afinal, vários membros das elites políticas e econômicas também atuaram naquele processo em defesa dos seus próprios interesses. Até D. Leopoldina (esposa de D. Pedro) participou dos debates acerca da Independência na época. Vale lembrar ainda que diversos grupos oriundos das camadas populares também participaram dos conflitos ocorridos no período, como em Pernambuco (na Revolução de 1817) e nas províncias do Grão-Pará, do Piauí e da Bahia, por exemplo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARQUIVO NACIONAL. Memória da Administração Pública Brasileira: Cronologia. Disponível em:  <http://mapa.an.gov.br/index.php/publicacoes/80-assuntos/producao/cronologia/509-periodo-imperial-1822-a-1889>. Acesso em: 06 set. 2021.

D. PEDRO: imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil. MultiRio, [s.d.]. Disponível em: <http://multirio.rio.rj.gov.br/index.php/estude/historia-do-brasil/brasil-monarquico/89-a-emancipa%C3%A7%C3%A3o-politica/8885-d-pedro-imperador-constitucional-e-defensor-perp%C3%A9tuo-do-brasil>. Acesso em: 06 set. 2021.

DOMINGUES, Joelza Ester. Sete de Setembro, independência do Brasil. Ensinar História [s.d]. Disponível em: <https://ensinarhistoria.com.br/linha-do-tempo/sete-de-setembro-independencia-do-brasil/>. Acesso em: 06 set. 2021.

FIGUEIREDO, Aldrin Moura. A Independência do Brasil a partir da Amazônia. YouTube, 03 set. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=BUL8-h2wGgA&list=PLriJoLGwAjBm1cDOwg3h5YRBMKh4VX205&index=6>. Acesso em: 06 set. 2021.

GUERRA FILHO, Sérgio. A Independência do Brasil na Bahia. YouTube, 03 set. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=i5tQiKNMGB0&list=PLriJoLGwAjBm1cDOwg3h5YRBMKh4VX205&index=7>. Acesso em: 06 set. 2021.

LYRA, Maria de Lourdes Viana. Memória da Independência: marcos e representações simbólicas. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 15, n. 29, p. 173-206, 1995. Disponível em: <https://www.anpuh.org/arquivo/download?ID_ARQUIVO=3779>.  Acesso em: 06 set. 2021.

MALERBA, Jurandir. O Bicentenário e as Batalhas de Narrativa. YouTube, 03 set. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=hmR9L_vs_QE&list=PLriJoLGwAjBm1cDOwg3h5YRBMKh4VX205&index=4>. Acesso em: 06 set. 2021.

PIMENTA, João Paulo. A violência na História da Independência. YouTube, 01 set. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-KGWkiGB2ww&list=PLriJoLGwAjBm1cDOwg3h5YRBMKh4VX205>.  Acesso em: 06 set. 2021.

SILVA, Wlamir. Autonomismo, contratualismo e Projeto Pedrino: Minas Gerais na Independência. Revista de História Regional, Ponta Grossa, v. 10, n. 1, p. 53-94, 2005. Disponível em: <https://revistas2.uepg.br/index.php/rhr/article/view/2210/1690>. Acesso em: 06 set. 2021.

SLEMIAN, Andrea. A Imperatriz Leopoldina e a Independência. YouTube, 03 set. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=K1Mx0YH43oc&list=PLriJoLGwAjBm1cDOwg3h5YRBMKh4VX205&index=5>.  Acesso em: 06 set. 2021.

TOLEDO, Ana Tereza Landolfi. O Império Português na Crise do Antigo Regime: as elites políticas de Minas Gerais no contexto da independência do Brasil. Mneme – Revista de Humanidades, Caicó, v. 14, n. 32, p. 1-28, jan./jul. 2013. Disponível em: <https://periodicos.ufrn.br/mneme/article/view/3148/4141>. Acesso em: 06 set. 2021.

VILLALTA, Luiz Carlos. A Revolução de 1817: Uma Outra Independência. YouTube, 03 set. 2021. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ch4UrnV1T68&list=PLriJoLGwAjBm1cDOwg3h5YRBMKh4VX205&index=3>. Acesso em: 06 set. 2021.




sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O racismo e o Dia da Consciência Negra


20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Novamente, a data de hoje foi marcada por intensos debates a respeito do racismo em nosso país. E mais uma vez eu tive o desprazer de ver pessoas dizendo que “falar de racismo é desnecessário”, que “não há racismo no Brasil” e que “tocar no assunto só piora a situação dos negros”.

A pouca valorização da disciplina de História em nossas escolas gerou em grande parte da população brasileira uma assustadora falta de consciência histórica. Como historiador, eu gosto muito de lembrar a frase escrita por Marc Bloch há vários anos: “A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas talvez não seja menos vão esgotar-se em compreender o passado se nada se sabe do presente”. Precisamos refletir seriamente a respeito da nossa própria História. O Brasil é um país no qual, por mais de três séculos, pessoas negras de origem africana foram escravizadas e sofreram com as mais diversas formas de violência: muitos foram espancados, mutilados, mortos e impedidos de manifestarem com total liberdade a sua cultura.

Eu não estou falando de algo que ocorreu somente durante algumas semanas. Eu estou falando de algo que ocorreu em nosso país durante séculos! No Brasil, os corpos negros foram desde o início de nossa História o alvo preferencial de atos de violência. Como esquecermos o fato de que, durante o período da escravidão, negros eram castigados em praça pública diante de todos? Por muito tempo, os negros foram mal vistos no Brasil. Dizia-se que eram perigosos, traiçoeiros e que não eram tão “evoluídos” quanto o homem branco. Essa imagem negativa a respeito dos negros também contribuiu para que, em nosso país, o processo de abolição da escravidão fosse extremamente lento. No século XIX, não eram poucas as pessoas que diziam que os negros não estavam aptos para o trabalho assalariado livre, o que serviu de justificativa para manter o trabalho escravo no Brasil por muitos anos. E mesmo depois da abolição, em 1888, a situação dos negros não melhorou: eles foram abandonados à própria sorte e não houve nenhuma política pública séria para garantir a eles educação, saúde e segurança. O preconceito continuou existindo. Nas primeiras décadas do século XX, a capoeira e o samba – dois significativos elementos da cultura afro-brasileira – eram vistos como “coisa de vagabundo”. E o que dizer então das religiões de matriz africana? Estas sempre foram consideradas em nosso país como “coisa do diabo”, em uma explícita manifestação de preconceito.

E hoje? Quais são os desafios enfrentados diariamente pelas pessoas negras no Brasil? Infelizmente, os casos de racismo continuam existindo. Todos os dias, acompanhamos na imprensa e nas redes sociais situações em que negros são chamados de “macacos”, casos de negros espancados (às vezes até a morte, como no recente episódio ocorrido no supermercado Carrefour, em Porto Alegre-RS [1]), assassinados por policiais ao serem confundidos com bandidos e humilhados de diversas formas apenas por causa da cor da sua pele. É uma dura verdade: os atos de violência praticados contra os negros no Brasil não ficaram apenas no período colonial, eles continuam existindo até os dias de hoje, ainda que sob novas e diferentes formas. Se você acha que atualmente não existe mais racismo, eu proponho o seguinte exercício: sempre que você ver um negro sendo vítima de algum tipo de violência, tente imaginar se naquela mesma situação um branco seria tratado da mesma forma. Pode ser que aí você se dê conta da dimensão do problema do racismo no Brasil.

Como agir diante deste quadro? Há quem diga que o melhor seria evitar falar de racismo, esquecer o nosso passado escravocrata e ignorar o fato de que os negros ainda sofrem com o preconceito. Em uma mistura de ingenuidade, falta de conhecimento a respeito da História do Brasil e desonestidade intelectual, o que essas pessoas procuram no fundo é reafirmar o mito da “democracia racial” em nosso país, como se, por meio de um truque de mágica, toda violência e discriminação das quais os negros têm sido vítimas simplesmente pudessem desaparecer só de não se falar mais nelas. O que essas pessoas buscam é recuperar a equivocada ideia segundo a qual o Brasil seria um país sem conflitos, “abençoado por Deus e bonito por natureza”.

É preciso termos consciência a respeito de todos os episódios de violência que ocorreram ao longo da História do Brasil. É preciso admitirmos que, ainda no tempo presente, o nosso país continua sendo marcado pelo racismo. Talvez algumas pessoas se sintam incomodadas quando se fala a respeito de assuntos como esses. Mas não é jogando a poeira para debaixo do tapete que se limpa uma casa. Por isso é importante falar e debater seriamente sobre o problema do racismo a partir de uma perspectiva histórica. Da mesma forma que um paciente procura um psicólogo ou um psicanalista para tentar aprender a lidar com os seus próprios traumas, a sociedade brasileira precisa aprender a lidar com as difíceis memórias acerca de sua própria História. Por isso é importante falar, debater, denunciar casos de racismo e colocar os racistas em seu devido lugar, ou seja, na cadeia. Afinal, racismo é crime e deve ser duramente combatido.

Ignorar um problema não será jamais a melhor forma de resolvê-lo e de evitar que ele traga perigosas consequências. O racismo é um problema que precisa ser enfrentado de frente. E para aqueles que se sentirem incomodados quando abordarmos o assunto, faço questão de lembrar que, como bem disse Peter Burke, “a função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”.

Prof. Dr. Rodrigo F. Dias

[1] HOMEM NEGRO é espancado até a morte em supermercado do grupo Carrefour em Porto Alegre. G1, 20 nov. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2020/11/20/homem-negro-e-espancado-ate-a-morte-em-supermercado-do-grupo-carrefour-em-porto-alegre.ghtml>. Acesso em: 20 nov. 2020.




domingo, 15 de março de 2020

China, Índia e Japão na Antiguidade

Olá,

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Atenciosamente,

Prof. Dr. Rodrigo F. Dias



quinta-feira, 12 de março de 2020

A Mesopotâmia e o Egito na Antiguidade

Olá,

Para fazer o download de um arquivo em PDF com slides sobre a Mesopotâmia e o Egito na Antiguidade, clique aqui.

Atenciosamente,

Prof. Dr. Rodrigo Francisco Dias



quarta-feira, 11 de março de 2020

As Origens da Humanidade

Olá,

Para fazer o download de um arquivo em PDF com slides sobre as Origens da Humanidade (Pré-História), clique aqui.

Atenciosamente,

Prof. Dr. Rodrigo Francisco Dias



domingo, 23 de fevereiro de 2020

Professor da UFRGS desvenda mistério sobre a construção de Machu Picchu (*)


(*) Entrevista originalmente publicada no site do Portal Adverso, no dia 11 de fevereiro de 2020. Para ver a entrevista conforme publicada no site de origem, clique aqui.


O Portal Adverso entrevistou o associado da ADUFRGS, professor Rualdo Menegat, sobre a repercussão do estudo apresentado no Congresso da Sociedade Norte-Americana de Geologia, em setembro de 2019. O motivo dos povos Incas terem construído Machu Picchu num lugar tão alto foi o que instigou o geólogo a desenvolver a pesquisa. Confira a entrevista.

PA - Do que se trata a pesquisa e o que o instigou a realizá-la?

Menegat - As civilizações são geralmente descritas em seus aspectos culturais, como se estes não tivessem conexão direta com as condições materiais e ambientais (ecossistemas e geossistemas) onde se desenvolveram em um longo período de tempo. Reconhece-se a habilidade dos Sumérios para lidar com o barro das planícies fluviais, a porcelana das argilas dos que habitavam o rio Amarelo (Huang He) na China, o granito e calcário dos egípcios, o mármore dos gregos e romanos. Pouco se fala das rochas dos Incas e de como seria possível desenvolver uma civilização no inóspito e elevado mundo andino. Justo a região que inspirou grandes teorias científicas como as de Humboldt, Darwin e Troll. 

Como geólogo e conhecendo a região andina, conjecturei que nenhuma civilização poderia sobreviver ali sem conhecer em profundidade as rochas e as montanhas dos Andes. Esse conhecimento que hoje chamamos de geologia não poderia estar ausente nessas culturas andinas. Como Machu Picchu não foi destruída ou transformada pelos conquistadores espanhóis, ela ainda poderia conter as informações que eu queria investigar. 

Considerei, inicialmente, que Machu Picchu não poderia ser um caso isolado da estratégia de sobrevivência dos Incas nos Andes. Não poderia ser construída por um mero capricho de um governante. Deveria fazer parte de uma prática de construção de assentamentos em lugares altos e rochosos. Mas o que guiaria essa prática? Que conhecimento das montanhas e do mundo rochoso os construtores precisavam saber para ter sucesso na construção de cidades sob essas condições? Essas questões ainda não haviam sido objeto de pesquisa científica e decidi investigá-las a fundo.

Para dar conta dessas questões tive que construir um caminho de integração de dados e áreas do conhecimento. Quer dizer, além de fazer a análise das condições de habitabilidade andina – dinâmica das águas, geometria dos blocos rochosos, morfologia dos terrenos, entre outros – também fazer a síntese e entender o longo processo de domesticação de montanhas. Pude concluir que os Incas construíam seus assentamentos em locais onde as falhas geológicas se cruzam e que eles herdaram essa prática de domesticar falhas a partir de um longo processo cultural, que remonta pelo menos oito mil anos. Isso significa entender as condições materiais e ambientais de um impressionante processo civilizatório que permitiu que a humanidade pudesse sobreviver, em larga escala, em uma das mais geodinâmicas e inóspitas regiões do planeta: os Andes.

PA - Porque os Incas construíram Machu Picchu num lugar tão alto?

Menegat - A primeira grande questão da habitabilidade humana nos Andes é entender que ali há áreas que são altamente proibitivas para a vida humana. Se me perguntassem como geólogo onde seria possível assentar um povoado nessa região, eu responderia que há vários locais viáveis. Porém, nunca no fundo dos vales andinos. Embora esses lugares pareçam convidativos, pois se situam em pequenas faixas planas, com bom solo, margeando abundante água de rios, são extremamente perigosos. Isso parece ser um contrassenso, pois as chamadas civilizações antigas como as do Nilo, Hindu, Tigre e Eufrates, e Amarelo se estabeleceram justamente nas margens de rios. Parece que civilizar é sinônimo de domesticar rios. 

Porém não nos Andes. Em primeiro lugar, os rios andinos podem mudar subitamente de volume. Em momento de cheia, se transformam em violentas ‘torrenteras’ que tudo carregam. Em outros, ficam completamente secos. Essa inconstância pode fazer com que as plantações sejam varridas pela água, ou dizimadas pela seca. Em ambos os casos, haverá fome. Em segundo lugar, os fundos de vales andinos são propensos a serem soterrados por gigantescos escorregamentos de encostas montanhosas. Não há como gerenciar esses fenômenos. A inteligência determina que tais áreas sejam proibitivas para assentamentos humanos.

Os Incas entenderam justamente esses aspectos e, então, procuraram janelas de habitabilidade em locais mais altos e seguros, porém onde se poderia assentar um povoado com segurança durante muitos anos. Machu Picchu foi construída dentro dessa perspectiva. A condição geológica, então, para tornar possível essa estratégia é a de que a área de assentamento da comunidade esteja em uma zona de cruzamento de falhas. 

PA - Quais os benefícios de se ter uma cidade construída nesta zona, a 2.300 metros de altitude?

Menegat - As falhas geológicas são rupturas das massas rochosas, formando faixas alongadas de rochas intensamente fraturadas. Como em um pacote de bolachas que alguém sentou em cima. As linhas de falhas podem ocorrer associadas, formando redes, como na região de Cusco. Lá, as falhas resultaram de processos geológicos relacionados à formação da Cordilheira dos Andes. Essa cordilheira se originou da intensa compressão produzida na borda do continente pelo choque entre a placa da América do Sul e a placa de Nazca. Isso produz rupturas nas massas rochosas, fraturando-as. Quanto mais intenso o fraturamento, mais facilmente os blocos de rochas são removidos pela erosão. Por esse motivo, as redes de falhas são responsáveis pela morfologia das montanhas, dos vales e também dos blocos rochosos que vão se desprendendo nas encostas. Agora veja, onde as falhas se cruzam, as rochas estão ainda mais fraturadas. Portanto, são locais em que há abundância de blocos soltos na superfície do terreno, possíveis de serem utilizados para a construção dos muros dos terraços de plantio e casas. Também ali os blocos previamente fraturados podem ser mais facilmente removidos para encravar as edificações no substrato rochoso. Além disso, os blocos assumem formas típicas, como romboedros, triângulos, hexágonos e fractais (auto-similaridade). Blocos com essas formas podem se encaixar geometricamente em mosaicos de muros e paredes de edificações. Portanto, a disponibilidade de blocos pré-fraturados e a possibilidade de esculpir o substrato rochoso para encravar aí terraços e edifícios são grandes nesses locais. Finalmente, e com igual importância, é o fato de que as áreas fraturadas por falhas geológicas acumulam água. Esta fonte de água abastece os moradores e pode ser usada para irrigar os terraços de plantações. Portanto, essas são as condições geológicas essenciais que possibilitam construir e habitar locais elevados nas montanhas, longe do fundo dos vales, que geralmente são soterrados por avalanches e varridos por inundações torrenciais. 

Esses resultados são surpreendentes quando reconhecemos que o mundo andino é altamente inóspito. Lá a vida humana é possível apenas em alguns lugares, exatamente onde a água escorre lentamente através de fraturas. Os Incas sabiam seguir esse critério, que permitia estabelecer redes de assentamentos nesse tipo de oásis de habitabilidade proporcionado pelas falhas e fraturas. As cidades e as plantações não eram grandes, mas o pouco que podia ser produzido em um local possibilitava trocas com outros locais, resultando em grande diversidade. Os Incas desenvolveram uma cultura de complementaridade e justaposição de blocos rochosos e também de alimentos que sustentaram 10 milhões de pessoas sem fome e sem escravidão. Isso é singular na história humana. Não há outro exemplo de tamanho sucesso civilizatório em regiões elevadas, inóspitas e distantes de rios ou costas de mares.

PA - Como os Incas conseguiam identificar falhas geológicas?

Menegat - Essa é uma pergunta muito interessante, pois nós, brasileiros, em geral, vivemos longe de regiões montanhosas, onde as rochas estão completamente à mostra. Temos mais facilidade de comentar sobre florestas e vegetais do que sobre rochas. Mas, nos Andes, é exatamente o contrário: há abundância de imensas exposições rochosas. Aqueles familiarizados com as montanhas andinas logo percebem que elas são cortadas por grandes estruturas. Os Incas sabiam reconhecer zonas intensamente fraturadas e sabiam que elas se estendiam por longos trechos. E isso por uma razão simples: falhas podem conduzir a água. Veja: considere uma falha que começa no topo nevado de uma montanha e se estenda até 3.000 metros para baixo alcançando os vales profundos. O derretimento da neve na primavera e verão alimenta essa falha e altera a quantidade de água que flui através dela. Pronto, temos uma evidência que nos permite reconhecer essas grandes estruturas. Falhas e aquíferos fraturados fazem parte do ciclo da água no reino andino tanto quanto os rios nas terras baixas. Além disso, existe uma palavra quéchua para grandes fraturas, que é 'quijllo'. Como disse o grande escritor peruano José Maria Arguedas, ‘quijllo’ era a palavra utilizada pelos incas para designar ‘grandes fraturas que atravessam as montanhas’. Os geólogos chamam isso de falha. Os Incas construíram uma civilização no reino das rochas fraturadas.

PA - Como foi desenvolvida a pesquisa e quem financiou?

Menegat - Comecei esse trabalho no início dos anos 2000 como tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFRGS. A pesquisa foi desenvolvida com base em três estratégias. Expedições geológicas de campo, análise de imagens de satélite em várias escalas e, finalmente, discussão de resultados com várias comunidades científicas da região andina. As investigações de campo foram realizadas em quatro expedições em 2001, 2006, 2010 e 2012. A análise das imagens de satélite foi realizada em laboratório. Também usei várias descrições geológicas e estudos da região de Cusco e do Vale Sagrado. Na época em que desenvolvi meu doutorado contava com apoio da CAPES na forma de taxas de bancada e também com todo o suporte dessa agência aos programas de pós-graduação no Brasil. Um programa de fomento à ciência e formação científica exemplar que certamente serviu de modelo a muitos outros países no mundo inteiro e deveria continuar sendo.

Além disso, como estratégia de pesquisa, em cada etapa de meu trabalho fui apresentando os resultados a pesquisadores peruanos de várias áreas do conhecimento (geologia, arqueologia, antropologia, arquitetura, urbanismo, ecologia da paisagem e epistemologia) e em várias universidades do Peru e da América do Sul. Isso foi por motivos éticos – estava pesquisando um tema de alto interesse para a sociedade peruana e andina – e também como forma de submeter minhas hipóteses à severa crítica, o que me ajudaria a assegurar a correção de dados (há diversidade de grafias em espanhol e em runa-simi para um mesmo topônimo, por exemplo, o que dificulta reconhecer onde inicia e termina um acidente geográfico como um rio). Ao mesmo tempo, isso me possibilitava avaliar o alcance e a importância de minhas descobertas para os pesquisadores da cultura andina e suas comunidades. Por isso, proferi conferências e seminários nas principais universidades do Peru, e também na Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai, México e Brasil. Como vemos, a descoberta científica tem 1% de inspiração e 99% de suor e longa persistência.

Recentemente, tive a oportunidade de apresentar as conclusões dessa investigação no congresso da Sociedade Norte-Americana de Geologia, realizado em 23 de setembro de 2019, na cidade de Phoenix, Arizona. A comissão organizadora resolveu, então, destacar meu trabalho intitulado “How Incas used geological faults to build their settlements” (Como os Incas utilizaram as falhas geológicas para construir seus assentamentos), dentre mais de quatro mil aprovados. Isso significaria difusão em alguns canais de divulgação científica da América do Norte. Mas, acabou ocorrendo um enorme extravasamento, pois ele foi veiculado em importantes revistas científicas de todo o mundo, como a Science, Smithsonian Magazine, Archaeology nos Estados Unidos; ou Spektrum der Wissenschaft, na Alemanha; Le Monde Science, na França; e a National Geographic, na Espanha. Além disso, também foi noticiado na chamada grande imprensa, como no Newsweek e Forbes (EUA), Daily, The Times e BBC (UK), The Australian, La Nación, El Comercio, entre outros. A notícia foi registrada em 82 veículos de divulgação científica e de massa, em mais de 30 países.

PA - O senhor esperava toda essa repercussão?

Menegat - O resultado foi muito além do esperado. Em geral, apenas alguns sites da internet especializados em divulgação científica costumam publicar os melhores trabalhos desse congresso. Mas no caso dessa investigação sobre Machu Picchu, ele alcançou importantes mídias científicas e de massa em todos os continentes. Os nomes da UFRGS, da geologia e do Brasil foram veiculados em 15 línguas, dentre as quais o persa, o árabe, o coreano, o chinês, o japonês, além das diversas línguas europeias. Na China, por exemplo, foi noticiado no jornal Cancao Xiaoxi, o mais popular de Pequim. A National Geographic afirmou que com minha pesquisa está “Resolvido o mistério do porquê os Incas construíram Machu Picchu em um lugar tão inacessível”. Esse reconhecimento internacional tem grande importância para a ciência brasileira e também reforça os temas mais propriamente sul-americanos de investigação. Como disse o renomado geólogo brasileiro, Prof. Dr. Yocitero Hasui, “não há paralelo na história da geologia do Brasil”.