terça-feira, 26 de março de 2019

A Formação da Itália e a Formação da Alemanha

Olá a todos,

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Atenciosamente,

Prof. Dr. Rodrigo Francisco Dias



terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O Imperialismo no século XIX

Olá a todos,

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Atenciosamente,

Prof. Rodrigo F. Dias



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Para que serve a História? Por que os alunos do Século XXI devem estudar História? (*)

(*) Texto escrito por Joelza Ester Domingues, originalmente publicado no site Ensinar História no dia 28 de novembro de 2018. Para ver o texto conforme publicado no site de origem, clique aqui.

No mundo de hoje onde o foco é o presente e o futuro, a História é vista como um conhecimento praticamente dispensável para a vida e o mercado de trabalho. Para quê estudar coisas que aconteceram há muito tempo? Que importância tem a História no currículo escolar e na vida prática? Os historiadores não salvam vidas como os médicos, não constroem edifícios, pontes ou rodovias, não prendem criminosos, nem apagam incêndios e sequer inventam equipamentos eletrônicos ou remédios para a cura do câncer. Enfim, qual a importância em estudar o passado diante de tantas necessidades do presente?

Com todos esses questionamentos contrários à História, ainda assim essa ciência atrai muita gente. Não somente estudantes, mas, também profissionais com carreiras consolidadas que decidem voltar à faculdade para fazer História. É possível que o interesse imediato desse público seja conhecer o passado, o que parece óbvio, mas essa não deveria ser a única razão para alguém estudar História. Há muitos outros motivos, menos tangíveis e imediatos do que os de outras ciências, mas indispensáveis para se estudar História, como comentaremos abaixo.

Que passado a História estuda?

Conhecer o passado é da natureza do conhecimento histórico. Mas, a História não é a necrologia do passado, não é uma lista de nomes, datas e feitos de pessoas mortas. São as questões do presente que orientam a pesquisa do passado. Assim, o passado interessa na medida em que ajuda a responder nossas perguntas sobre o que vivemos hoje.

Os estudos históricos têm se concentrado em compreender questões atemporais, por exemplo, as formas pelas quais pessoas, comunidades e nações interagem; a natureza do poder e da liderança política; as dificuldades do governo e da gestão econômica; o impacto da guerra e do conflito nas sociedades; a interferência de valores e fundamentos religiosos nas sociedades; as relações entre as diferentes classes, riqueza, capital e trabalho etc. Temas e questões como essas nunca morrem, apenas as pessoas, os lugares e os detalhes mudam.

A História fornece um reservatório das múltiplas experiências humanas em espaços e tempos diferentes – a única base de evidências reais de como as sociedades se comportam. Se a nação está em paz, como avaliar o impacto de uma guerra sem recorrer à História? Como avaliar a ameaça contra a democracia sem usar nossos conhecimentos ou experiências de ditaduras do passado?

Esse é o sentido em conhecer o passado: fornecer referências para compreender como as pessoas agem, que fatores as impulsionam crescer e mudar, ou porque resistem às mudanças, o que impacta nossas vidas de maneira positiva e negativa. Esse conhecimento amplifica nossa compreensão sobre o mundo moderno e sinaliza outras possibilidades de experiências.

"Em resumo, prestem atenção a esta aula e vocês não serão facilmente enganados 
como os seus pais.", diz a professora de História.

Para que serve a História? Que habilidades ela desenvolve?

Nem todo estudante de História se torna um historiador profissional. Mas, certamente, o estudo da História desenvolve habilidades e competências indispensáveis para qualquer outra ciência e profissão. Comentamos abaixo as habilidades específicas do estudo da História mas que não se limitam a ela, mas são essenciais para outros campos do conhecimento.

1. Extrair evidências e significados em fontes diversas

Pesquisar, localizar e interpretar material escrito, artefatos, fontes orais, digitais e visuais desenvolve as habilidades de extrair informações e interpretações avaliando sua confiabilidade, credibilidade, utilidade, significado e relevância. A capacidade de examinar e confrontar dados variáveis permite distinguir verdade, mentira, manipulação e distorção de fatos e objetivos – habilidade importante para enfrentar os desafios das tecnologias de informação e comunicação.

2. Avaliar interpretações conflitantes

Estudar as sociedades e as experiências humanas é lidar com contradições, ambiguidades, conflitos e interesses divergentes que interferiram no passado. O estudo da História é um laboratório de treinamento para identificar e avaliar situações conflitantes que atuam no presente – na política, na sociedade, na cultura por exemplo – fornecendo subsídios para distinguir objetivos, perceber mudanças ou continuidades e identificar tendências.

3. Analisar mudanças e continuidades

A História não estuda o passado morto e acabado, mas as mudanças que ocorreram, suas causas e desdobramentos, sua magnitude e importância no processo histórico. É uma habilidade essencial para entender nosso mundo atual em constante mudança. Há um consenso, hoje, de que o trabalhador do futuro deve ser capaz de se adaptar à mudança. As transformações ocorridas no passado fornecem pistas que ajudam refletir sobre as mudanças exigidas no presente. O que aconteceu com os artesãos urbanos na Revolução Industrial? Como as famílias se recompuseram depois de guerras ou epidemias devastadoras?

À luz da História, é possível avaliar se um determinado fator é gerador de mudanças profundas ou superficiais. O aprendizado da História permite avaliar, por exemplo, até que ponto uma inovação tecnológica, uma nova política educacional ou uma rebelião social são, de fato, geradores de mudanças significativas ou só reacomodaram velhas estruturas.

4. Relacionar e confrontar diferentes tipos de evidências

O estudo da História desenvolve uma visão mais ampla dos acontecimentos ao estabelecer conexões entre fatores diversos buscando entender como eles interagem. A História lida, também, com diferentes interpretações e versões de sujeitos, culturas e povos. Isso possibilita confrontar pontos de vista, fazer inferências claras e pertinentes, estabelecer inter-relações e compreender situações mais complexas em que é necessário “olhar a floresta e não somente a árvore” – uma habilidade fundamental em nosso mundo globalizado que não comporta explicações simples nem únicas.

5. Produzir conhecimento e resolver problemas

A pesquisa histórica é, muitas vezes, um salto no escuro. À medida que se aprofundam no passado, os historiadores quase sempre encontram perguntas não respondidas, informações obscuras, datas e nomes que não correspondem, ausência ou inconsistência de dados, documentos incompletos ou inexistentes. É como montar um gigantesco quebra-cabeça sem imagem para servir de guia. O pesquisador deve avaliar suas evidências, selecionar informações relevantes e confiáveis, buscar referências para as peças que faltam em sua pesquisa, formular hipóteses, desenvolver argumentos apoiados em teorias confiáveis – enfim, o estudo da História produz conhecimento para solucionar problemas apontados pelas grandes perguntas que norteiam o trabalho do historiador.

6. Utilizar múltiplos conhecimentos de diferentes ciências

A História se interessa por todos os aspectos da vida humana – política, economia, cultura, cotidiano, infância, mentalidades, artes, guerras, trabalho etc. – o que abre um enorme leque de temas de pesquisa e de abordagens. Para isso, a pesquisa histórica utiliza conhecimentos e ideias de outras ciências como a Antropologia, a Geografia, a Psicologia, a Linguística etc.

Além disso, todos os campos do conhecimento têm a sua história o que torna a História uma ciência de múltiplas dimensões: há uma História da Música, da Matemática, das Ciências, da Medicina, do Direito, da Educação, da Religião e, até mesmo, a História da História.  Essa habilidade torna o historiador e o estudante de História mais apto para “pensar fora da caixinha” unindo criatividade ao pensamento científico e crítico.

7. Argumentar e expressar-se em diferentes linguagens de forma clara e fundamentada

A História trabalha com uma enorme diversidade de documentos: textos, fotografias, caricaturas, gráficos, tabelas, mapas, artefatos, áudios, artes plásticas etc. Isso habilita o historiador a utilizar diferentes linguagens, a ler criticamente e a questionar todo material que examina seja uma notícia de jornal, uma entrevista, uma carta medieval ou uma caricatura do século XIX. Em um mundo onde as fake news podem influenciar as eleições, as habilidades dos historiadores são mais do que nunca necessárias.

Com base no material coletado e analisado, o historiador formula e defende suas ideias com afirmações claras, ordenadas, fundamentadas e compreensíveis. Isso pode ser feito em diferentes linguagens e plataformas: livros, ensaios, artigos, resenhas, blogs e, também em exposições orais, vídeos, entrevistas etc. A História desenvolve uma forte capacidade de comunicação, de questionamentos, formulação de hipóteses e argumentação.

Conclusão

O pensamento crítico e criativo, e a capacidade de investigação criteriosa, entre outras habilidades desenvolvidas pelo estudo da História, têm sido requisitos importantes na seleção de candidatos para as grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos e do Reino Unido, levando-as a empregarem estudantes de humanidades junto aos graduados em engenharia e ciência da computação.

A importância da História, contudo, é muito mais ampla do que as habilidades que ela desenvolve. Ela nos ilumina sobre nossa rica herança cultural e é essencial para despertar e fortalecer os laços de coesão de uma comunidade. A consciência histórica, essa memória coletiva e individual de pertencimento, é um elemento crucial para superação de marcas do passado que levaram a desigualdades, preconceitos e estigmas sociais.

A História instiga o indivíduo a questionar seu próprio mundo e a buscar maneiras de torná-lo melhor. É um repositório de experiências humanas que fornece uma compreensão real da interdependência entre sociedades. Inspira a reconhecer a importância da ética, da tolerância, da empatia, do acolhimento e valorização da diversidade.

Por fim, como lembra Marc Bloch, “mesmo que julgássemos a história incapaz de outros serviços, seria certamente possível alegar em seu favor que ela distrai (…).  Pessoalmente (…) a história sempre me divertiu muito”. Isso não deve ser subestimado: um dos fundamentos da atividade intelectual consiste no prazer, na satisfação derivada do conhecimento – o que responde porque todo historiador, professor ou estudante de História é apaixonado pelo seu estudo.

Fontes:

BLOCH, Marc. A Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

DUBY, Georges. O historiador, hoje. In: DUBY, Georges; ARIÈS, Philippe; LADURIE, E. L. R.; LE GOFF, Jacques (Orgs.). História e Nova História. Lisboa: Teorema, s/d, p. 07-21.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp, 1994.

MARROU, Henri-Irenée. Sobre o conhecimento histórico. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.

SCHMIDT, M. A. O ensino de História e os desafios da formação da consciência histórica. In. MONTEIRO, Ana Maria (Org.). Ensino de História: sujeitos, saberes e práticas. Rio de Janeiro: Mauad X: Faperj, 2007.

STEARNS, Peter. Why study History? (1998). American Historical Association. Disponível em: <https://www.historians.org/about-aha-and-membership/aha-history-and-archives/historical-archives/why-study-history-(1998)>. Acesso em: 11 dez. 2018.



quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A Centralização do Poder nas Mãos dos Reis: a formação da Inglaterra e da França

O REINO INGLÊS

No início do período medieval, a Grã-Bretanha foi ocupada por anglos e saxões. Como o rei anglo-saxão Eduardo, o Confessor (1042-1066), morreu sem deixar filhos herdeiros, houve uma disputa pelo trono. Em 1066, normandos vindos do norte da atual França invadiram a ilha e, sob a liderança de Guilherme, o Conquistador (primo de Eduardo), derrotaram os anglo-saxões na Batalha de Hastings, dando início à Dinastia Normanda. Desenvolveu-se um sistema administrativo para cobrança de impostos e um forte exército foi criado. Guilherme (1066-1087) dividiu o reino em condados, os “shires”, controlados pela nobreza e fiscalizados por funcionários chamados “sheriffs”.


No mapa se vê a rota feita por Guilherme, o Conquistador, que saiu da Normandia (norte da França) para invadir e conquistar a Inglaterra em 1066. Imagem da internet.

Em 1154, a Dinastia Plantageneta substituiu a Dinastia Normanda quando Henrique II (1154-1189) subiu ao trono. Os monarcas da Dinastia Plantageneta estabeleceram a justiça real e o “Common Law”, um conjunto de leis que deveria ser aplicado em todo o território.

Ricardo I, ou Ricardo Coração de Leão (1189-1199), foi o sucessor de Henrique II. Ricardo I se envolveu em guerras contra a França e participou da Terceira Cruzada, contribuindo com sua ausência para enfraquecer o poder real na Inglaterra. No reinado de João Sem-Terra (1199-1216), irmão de Ricardo, a insatisfação dos nobres com o rei atingiu o seu ponto máximo.

Guerreando contra a França, indispondo-se com o papa, elevando os impostos e tentando taxar os bens da Igreja, João Sem-Terra acabou tendo que enfrentar a revolta da nobreza, que lhe impôs a Magna Carta (1215). Segundo o documento, o monarca só poderia criar impostos ou alterar leis após a aprovação do Grande Conselho, órgão controlado por membros do clero e da nobreza.


Ilustração que retrata o momento em que o rei João Sem-Terra assinou a Magna Carta.
Imagem da internet.

Portanto, o processo de centralização política na Inglaterra foi retardado por meio dessa limitação ao poder real. Controlado por membros da velha ordem feudal, o Grande Conselho tinha um caráter conservador, e só aceitou a participação de burgueses em 1265.

Em decorrência da disputa de territórios no norte da Europa, como a próspera região têxtil de Flandres, a Inglaterra se envolveu na Guerra dos Cem Anos (1337-1453) contra a França. Os ingleses obtiveram vitórias iniciais importantes, mas passaram a enfrentar alguns problemas, tais como a peste negra, as rebeliões camponesas (destacando-se o levante liderado por Wat Tyler e John Ball, em 1381) e o próprio prolongamento da guerra. Neste contexto, houve o enfraquecimento da nobreza.
  
Com o fim da Guerra dos Cem Anos, já no século XV, começou uma disputa pela sucessão do trono inglês que afetaria ainda mais a nobreza: a Guerra das Duas Rosas (1455-1485), confronto entre as famílias York e Lancaster, fragilizou a nobreza e possibilitou a centralização política do país com a ascensão de Henrique Tudor ao poder.


O REINO FRANCÊS

Dinastia Capetíngia (987-1328), fundada por Hugo Capeto, atuou na centralização do poder no reino francês. Um dos reis dessa dinastia foi Filipe Augusto, ou Filipe II (1180-1223), que iniciou o processo centralizador ao cobrar impostos em todo o território francês e montar um poderoso exército para garantir o seu poder. Filipe II usou como pretexto para realizar tais ações a necessidade de combater os ingleses que ocupavam o norte da França. A antiga monarquia feudal, centrada nos feudos e marcada pela atuação de suseranos e vassalos locais, dava lugar a um Estado centralizado.

Após vencer os ingleses, Filipe II consolidou o seu poder por meio da força militar, da cobrança de impostos realizada por fiscais por ele nomeados e da imposição da justiça real sobre as leis dos nobres locais. O monarca aliou-se à burguesia vendendo Cartas de Franquia aos burgos que quisessem autonomia em relação aos senhores feudais. Já para os nobres territoriais, a força monárquica serviu para garantir os privilégios da nobreza e manter a ordem e a subordinação servil.

Luís IX, cujo reinado durou de 1226 a 1270, deu continuidade ao processo de centralização por meio de uma rede de tribunais e da instituição de uma moeda de circulação nacional. Tendo participado da Sétima e da Oitava Cruzadas, falecendo nesta última, sendo posteriormente canonizado pela Igreja católica como São Luís.

Ao herdar um Estado já fortalecido, Filipe IV, o Belo, cujo reinado durou de 1285 a 1314, procurou legitimar o seu poder criando a assembleia dos Estados Gerais, em 1302, sob o primado da soberania real. Formada por membros do clero, da nobreza e por comerciantes das cidades, a assembleia tinha um caráter apenas consultivo e só era convocada quando o monarca queria. Representantes das camadas mais pobres da sociedade francesa não participavam da assembleia.

Com o apoio da assembleia, Filipe IV taxou os bens da Igreja e o papa até o ameaçou de excomunhão. Com a morte do líder da Igreja católica em 1303, Filipe IV interferiu na escolha de seu sucessor, impondo o nome de um francês que viria a ser o papa Clemente V. Além disso, o rei francês forçou a transferência da sede da Igreja de Roma para a cidade de Avignon, no sul da França, em um episódio que ficou conhecido como o Cativeiro de Avignon. Durante setenta anos os papas ficaram submetidos à autoridade do rei da França. Quando outro papa foi nomeado em Roma durante o mesmo período, ocorreu o Cisma do Ocidente que dividiu a autoridade da Igreja católica, em uma situação que só seria superada no século XV.

O fortalecimento do poder monárquico francês foi suspenso com a Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Necessitando da nobreza para fortalecer o exército, a monarquia francesa teve de fazer concessões aos nobres. Ademais, a fome, a peste negra e a insatisfação da burguesia com as primeiras derrotas no confronto também colaboraram para o enfraquecimento da monarquia francesa. Eclodiram então as “jacqueries”, rebeliões camponesas como a ocorrida em 1358, quando castelos foram invadidos e senhores foram mortos. Essas rebeliões foram reprimidas pelo Estado e pela nobreza.

Iluminura do século XIV que retrata uma revolta camponesa ocorrida na França e que ficou conhecida como "o Massacre em Meaux". Imagem da internet.

Vitórias militares decisivas na Guerra dos Cem Anos vieram apenas no século XV, quando um grande levante popular se voltou contra os ingleses. Joana d’Arc, filha de camponeses humildes que se dizia enviada por Deus para guiar os franceses na expulsão do exército inglês, participou ativamente das lutas e teve um papel importante na resistência francesa à Inglaterra. Ela levou Carlos VII a ser coroado em Reims, conforme as antigas tradições dos francos, mas em 1430 foi capturada, acusada de heresia e condenada à morte por um tribunal eclesiástico.

Os franceses conseguiram expulsar definitivamente os ingleses apenas em 1453, quando terminou a Guerra dos Cem Anos.


Iluminura do século XV que retrata Joana d'Arc. Imagem da internet.




segunda-feira, 24 de setembro de 2018

A Centralização do Poder nas Mãos dos Reis: a formação de Portugal e Espanha

As estruturas feudais eram um obstáculo ao desenvolvimento comercial e urbano na Europa. Os vários feudos e os seus poderes locais atrapalhavam o comércio, pois os senhores feudais interferiam na atividade comercial cobrando impostos dos mercadores. Ademais, por conta da fragmentação política, não havia na Europa uniformidade territorial de leis, unidade monetária legal ou mesmo de pesos e medidas, algo que atrapalhava as transações comerciais.

A partir disso, comerciantes, artesãos e banqueiros passaram a defender a existência de um poder centralizado que se colocasse acima dos poderes locais, impusesse normas e também facilitasse o comércio. Essa burguesia europeia acabou contribuindo para a formação de um exército mercenário a serviço do Estado, uma força militar que tinha como finalidade garantir a autoridade do monarca. A ideia de centralização política também agradou aos reis europeus, que desejavam se sobrepor à nobreza e limitar o poder da Igreja.

A formação das monarquias centralizadas europeias, portanto, foi fruto da comunhão de interesses entre reis e burgueses. Por sua vez, a nobreza também acabou se beneficiando deste processo, pois o exército do rei garantia a ordem contra as rebeliões rurais e mantinha boa parte dos privilégios feudais. Quanto aos camponeses, muitos passaram a ver a figura do rei como alguém que poderia protegê-los dos abusos de poder por parte dos senhores feudais. Dessa maneira, a formação de monarquias centralizadas agradava a diferentes grupos sociais.


PORTUGAL

A Península Ibérica foi povoada por iberos, celtas, lígures, visigodos e árabes, estes últimos que lá chegaram no século VIII. A formação dos Estados centralizados na região está vinculada à Guerra de Reconquista dos territórios ocupados por muçulmanos. Foi graças à presença árabe que a religião islâmica chegou até a Península Ibérica, onde o cristianismo já se fazia presente. Os reinos cristãos independentes de Leão, Castela, Navarra e Aragão foram mantidos no norte da península, na região montanhosa das Astúrias, e foi dali que partiu o movimento da Reconquista a partir do século XI.




A presença histórica de cristãos e muçulmanos na Península Ibérica pode ser percebida por meio da arquitetura. As duas imagens acima mostram a Igreja de Alhos Vedros (Portugal), na qual a torre sineira cristã está unida a uma cúpula árabe.
Imagens da internet.  

A origem de Portugal remonta ao episódio da doação do Condado Portucalense feita pelo rei Afonso VI, de Leão e Castela, a Henrique de Borgonha, este último sendo um nobre francês participante da Guerra de Reconquista. A doação daquelas terras estava atrelada ao casamento entre Henrique de Borgonha e dona Teresa, filha ilegítima do rei. Em 1139, após disputas familiares, Portugal tornou-se independente de Leão e Castela, quando dom Afonso Henriques, o filho de Teresa e Henrique, expulsou a própria mãe do lugar porque ela defendia a sujeição do Condado Portucalense ao Reino de Leão.


A origem de Portugal está relacionada à doação do Condado Portucalense feita pelo rei Afonso VI, de Leão e Castela, a um nobre francês chamado Henrique de Borgonha. Imagem da internet.

A partir daquele momento iniciou-se a Dinastia de Borgonha (1139-1383), que continuou a guerra contra os muçulmanos e expandiu as fronteiras do reino para o sul. Com a expansão territorial, áreas eram doadas à nobreza guerreira, mas esses nobres não ganhavam a posse hereditária das terras. Em Portugal, portanto, a hegemonia da autoridade real foi mantida, enquanto que a formação de uma nobreza proprietária e autônoma não foi consolidada.

Com a transformação de Portugal em escala da rota marítima que ligava o mar Mediterrâneo ao norte da Europa, houve a consolidação do setor mercantil da sociedade portuguesa. A partir do século XIV, as guerras e a peste negra abalaram o continente europeu, aumentando a insegurança de rotas comerciais terrestres, o que fez com que a rota marítima que passava por Portugal ganhasse mais importância.

Em 1383, morreu Fernando I, o último rei da Dinastia de Borgonha, que não deixou herdeiros diretos. Houve então uma intensa disputa sucessória, pois parte da nobreza apoiava a entrega da Coroa portuguesa ao genro de dom Fernando, o rei de Castela, enquanto os comerciantes e setores populares queriam que dom João, mestre de Avis, subisse ao trono. Foi a chamada Revolução de Avis, e em 1385, na Batalha de Aljubarrota, as tropas castelhanas foram derrotadas. Dom João ascendeu ao trono e iniciou a Dinastia de Avis.

Com a nova dinastia, os interesses da monarquia e os do setor mercantil se aproximaram, pois os comerciantes queriam ampliar seus mercados e o rei queria fortalecer-se no poder por meio da cobrança de impostos. Tal aliança desencadearia a expansão marítima portuguesa a partir do século XV.


ESPANHA

Durante os tempos da Guerra de Reconquista, não havia um país chamado “Espanha”, pois o que se tinha eram os reinos de Leão, Navarra, Castela e Aragão. Com o passar do tempo, estes reinos foram se unindo uns aos outros por meio de alianças e casamentos. Em 1469, houve o casamento entre Fernando, príncipe de Aragão, e Isabel, filha do rei de Castela. Após a morte do rei de Castela, Isabel e Fernando decidiram unificar as duas coroas, o que representou um importante passo na formação da Espanha tal como a conhecemos hoje.

Fernando e Isabel ficaram conhecidos como os “Reis Católicos”, especialmente após terem firmado uma aliança com a Igreja Católica para expulsar muçulmanos e judeus da Península Ibérica. Em 1478, o papa Sixto IV criou o Tribunal do Santo Ofício (também conhecido como Inquisição) na Espanha, tribunal este que estava subordinado a Fernando e Isabel. A Inquisição espanhola encarregou-se de perseguir e punir pessoas que fossem acusadas de praticarem outras religiões diferentes da católica.


Representação de uma sala de interrogatório da Inquisição em uma obra do artista Alessandro Magnasco. Este quadro foi produzido entre 1710 e 1720. Imagem da internet.

Em 1492, a formação do Estado centralizado espanhol foi concluída após os "Reis Católicos" expulsarem os judeus do seu país e conquistarem o reino de Granada, o último reduto árabe no sul da Península Ibérica, com a consequente expulsão dos "mouros".


A Guerra de Reconquista foi o pano de fundo para a formação de Portugal e Espanha. 
A ampliação dos territórios desses dois países ocorreu simultaneamente à diminuição dos territórios ocupados por muçulmanos na Península Ibérica. Imagem da internet.

Mapa que mostra as atuais dimensões de Portugal e Espanha na Península Ibérica.
Imagem da internet.



domingo, 16 de setembro de 2018

Idade Média: tempo de transformações

A Idade Média muitas vezes é descrita como uma época de estagnação econômica e de poucas mudanças. Todavia, neste período histórico houve uma série de transformações de ordem econômica, política e também social. Especialmente a partir do ano 1000, o que se viu foram muitas mudanças na realidade do continente europeu, tais como a diminuição das invasões, a redução no número de epidemias, maior estabilidade e crescimento populacional.

Além disso, durante o período medieval houve uma notável quantidade de inovações tecnológicas. A charrua - arado de ferro - substituiu o arado de madeira, permitindo que se fizesse sulcos mais profundos no solo e que se revolvesse melhor a terra. Outra mudança importante, foi que o cavalo passou a ser usado com mais frequência para puxar os novos arados, e não mais o boi. O moinho de água passou a ser cada vez mais usado para moer cereais, enquanto que os moinhos de vento - introduzido pelos árabes entre os séculos XII e XIII - revelaram-se muito úteis para drenar a água de muitas regiões. Outra novidade foi a rotação trienal de culturas no cultivo da terra. Por meio dessa técnica, a área cultivável era dividida em três partes, mas em apenas duas se semeava alguma coisa. Na terceira parte do solo não se plantava nada, de modo a permitir que um pedaço da terra ficasse em descanso para recuperar a sua fertilidade. Nos anos seguintes, por meio de uma espécie de rodízio, mudava-se a função de cada parte do solo, conforme o esquema abaixo:

Esquema que mostra como funcionava a rotação trienal de culturas.
Imagem da internet.

Todas essas inovações na agricultura permitiram que houvesse um aumento na qualidade e na quantidade da produção agrícola. Isso favoreceu o aumento demográfico e, entre os anos de 1000 e 1300, a população europeia foi de 42 milhões para 73 milhões de pessoas. Com mais alimentos sendo produzidos, o excedente agrícola passou a ser vendido, o que reaqueceu o comércio. Com isso, o dinheiro voltou a circular com mais frequência e alguns camponeses chegavam a comprar a sua liberdade. Alguns acabaram indo para as cidades, enquanto que outros optaram por permanecer no campo recebendo salários em alguns casos.


Um vendedor de frutas e um vendedor de cereais vendem suas mercadorias em um
mercado medieval. Iluminura atribuída a Cristoforo de Predis (c. 1440-1486).

A circulação de mercadorias foi estimulada também pelas Cruzadas, por meio das quais os produtos do Oriente (como as especiarias, por exemplo) eram trazidos para a Europa. A intensificação do comércio favoreceu o surgimento de feiras regulares que normalmente eram realizadas nos cruzamentos das rotas comerciais. Com o passar do tempo, nos locais em que se realizavam as feiras começaram a aparecer e a se desenvolver muitas cidades. Aglomerações humanas também se formavam perto dos muros das abadias e dos castelos, sendo chamadas de burgos, locais onde o comércio era muito intenso.


Imagem aérea e atual do castelo em torno do qual surgiu a cidade de Carcassone (França). Na Idade Média era comum que aglomerações humanas se formassem nas proximidades dos muros dos castelos. 

Quando uma cidade surgia dentro ou perto de um feudo, os seus habitantes deviam uma série de taxas ao senhor feudal. Para conquistar a sua independência administrativa, os habitantes das cidades - em especial os comerciantes, que muitas vezes eram chamados de burgueses - buscavam obter as cartas de franquia. Essa carta era um documento por meio do qual os moradores da cidade ganhavam o direito de administrá-la por conta própria. Para as cidades, passaram a ir não apenas senhores feudais endividados, mas também servos e vilões que buscavam melhores condições de vida. Quando um camponês chegava à cidade, era comum que ele começasse a trabalhar com atividades artesanais.

Nas cidades, as mercadorias eram produzidas nas oficinas, que geralmente tinham um mestre que ficava com a maior parte dos lucros. Abaixo do mestre, estavam os oficiais, os jornaleiros e os aprendizes. No intuito de eliminar a concorrência, os mestres se organizavam em corporações de ofício que controlavam a quantidade, a qualidade e o preço das mercadorias a serem produzidas.

Nas cidades medievais também surgiram as primeiras universidades europeias, além de escolas independentes financiadas por reis e burgueses com o intuito de tirar o monopólio da Igreja sobre a educação. Para além desse estímulo à vida intelectual, as cidades da Idade Média também ofereciam diversas opções de lazer, tais como festivais com comida, música e dança. Nas tavernas, era possível beber vinho e cerveja, participar de jogos e cantar e ouvir músicas. Nas praças, era possível assistir às apresentações de artistas mambembes e a peças teatrais apresentadas nas línguas locais (e não em latim). Por sua vez, a nobreza se deleitava com os versos feitos pelos trovadores e pelos poetas.


Reprodução do quadro A Luta entre o Carnaval e a Quaresma, obra pintada por Pieter Bruegel, o Velho (1559). O quadro representa aspectos culturais que marcaram a Europa desde os tempos da Idade Média: de um lado se vê o clima festivo da cultura popular, do outro se vê a seriedade que marcava o espírito religioso da época.

Toda esse efervescência que marcou a Idade Média a partir do ano 1000, porém, sofreu um duro revés a partir do século XIV, quando a Europa passou a enfrentar uma grave crise. Secas prejudicaram a agricultura em várias regiões, o que provocou o problema da fome. Entre 1340 e 1350, uma epidemia de peste negra matou cerca de 25 milhões de pessoas no continente. A fuga de muitos camponeses da zona rural para as cidades fez com que os senhores feudais aumentassem os impostos para compensar seus prejuízos. As crescentes dificuldades fizeram com que muita gente começasse a defender mudanças na ordem social e política, porém, nas cidades a alta burguesia reagiu a quaisquer tentativas de mudança impedindo a participação política dos artesãos. O resultado foi que em várias regiões da Europa eclodiram revoltas urbanas e camponesas. Um outro episódio emblemático ocorreu quando o Império Bizantino, parceiro comercial da Europa ocidental, começou a ter partes de seu território conquistadas pelos turcos otomanos. Além disso, no século XIV também começou a Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França. Todo esse cenário de crise levou ao enfraquecimento das relações feudais e acabou favorecendo a centralização do poder nas mãos dos reis.


A epidemia de peste negra provocou a morte de milhões de pessoas no continente europeu durante o século XIV. A doença, somada à fome e às guerras e revoltas que marcaram a crise do feudalismo, contribuiu para gerar nas pessoas a consciência de que ninguém poderia escapar da morte. Na imagem, reprodução do quadro Triunfo da Morte (1562), de Pieter Bruegel.




sábado, 15 de setembro de 2018

Aspectos gerais do Feudalismo

Feudalismo foi uma forma de organização política, social e econômica que predominou em diversas partes da Europa durante a chamada Idade Média. No Feudalismo, a economia baseava-se na agricultura e a sociedade estava rigidamente hierarquizada, onde os grandes proprietários de terras e os membros do alto clero da Igreja Católica ocupavam o topo da pirâmide social. Por sua vez, os camponeses (servos da gleba) viviam sob o domínio dos senhores feudais. As relações sociais eram marcadas por fortes laços de dependência pessoal, como por exemplo as relações de suserania e vassalagem.


AS RELAÇÕES DE SUSERANIA E VASSALAGEM

No contexto do Feudalismo, o poder político estava dividido entre os senhores feudais e o rei. O monarca, no entanto, não tinha um poder fortemente centralizado em suas mãos, uma vez que eram os próprios senhores feudais que cobravam impostos e aplicavam a justiça em seus respectivos feudos.

A palavra "feudo", aliás, não designava somente uma faixa de terras que alguém recebia para administrar, mas também era usada para se referir a um cargo ou ao direito de cobrar impostos em uma determinada região. Em geral, um grande proprietário de terras poderia conceder feudos a outras pessoas. Aquele que concedia o feudo era chamado de suserano, enquanto que quem recebia era chamado de vassalo. As relações de suserania e vassalagem eram marcadas pela fidelidade e pela obediência. Após o vassalo receber um feudo, estabelecia-se um compromisso com o suserano que se caracterizava pela troca de favores: o vassalo deveria pagar impostos e ajudar o suserano no que fosse preciso, já o suserano tinha a responsabilidade de zelar pela segurança na região ocupada pelo vassalo.

Iluminura do século XIII retratando uma cerimônia na qual
o vassalo jurava fidelidade ao suserano. Autor desconhecido.

Em diversas regiões da Europa, era comum o fenômeno da subenfeudação, onde feudos maiores poderiam ser divididos em feudos menores. Assim, um mesmo suserano poderia ter vários vassalos, enquanto que um vassalo poderia se tornar suserano de outras pessoas. Essas possibilidades faziam com que as relações entre os membros da nobreza pudessem se tornar bastante complexas, e muitas vezes o "rei" era apenas um senhor feudal no meio de muitos outros. A própria nobreza estava dividida em alta e baixa nobreza, dependendo do título de nobreza e da quantidade de terras que um nobre possuía. O acúmulo de poder por parte dos senhores feudais podia vir por meio da realização de guerras ou de casamentos arranjados.


A VIDA DOS CAMPONESES

Durante a época do Feudalismo, os camponeses eram a maioria da população europeia. O trabalho era dividido segundo o gênero, pois as mulheres camponesas dedicavam-se mais a trabalhos domésticos enquanto que os homens geralmente trabalhavam nas atividades agrícolas. Os camponeses podiam ser servos ou vilões. Os servos estavam mais presos à terra, devendo permanecer nela e cultivá-la, já os vilões eram camponeses livres.

Os camponeses tinham uma série de obrigações para com os senhores feudais, tais como:

- corveia: prestação de serviços nas terras do senhor;
- banalidade: taxa paga pelo camponês para usar as instalações de propriedade do senhor (moinhos, fornos);
- talha: entrega de parte do que o camponês produziu para o senhor.

Ilustração presente no livro As Riquíssimas Horas do Duque de Berry (século XV).
A imagem retrata o trabalho dos camponeses no campo.

Além disso, o servo devia pagar taxas para os casos de sua esposa ficar grávida ou cometer adultério. Quando o servo se casava, o senhor feudal podia passar a noite de núpcias com a noiva, o que poderia não acontecer se o servo pagasse uma espécie de "indenização" ao senhor.

Ilustração mostrando como estava dividido um feudo. Imagem da internet.


O PODER DA IGREJA CATÓLICA

Durante a Idade Média, a Igreja Católica era uma instituição muito poderosa, não só do ponto de vista espiritual (em função da importância do pensamento religioso na época), mas também do ponto de vista material, uma vez que ela era dona de terras e bens materiais diversos. Em tal cenário, era comum que membros do alto clero se tornassem senhores feudais. A Igreja se organizava de maneira hierárquica, com o papa ocupando o posto mais elevado dentro da instituição. Abaixo do papa, vinham os arcebispos, os bispos, os diáconos e os padres.

O alto clero tinha um status semelhante ao da alta nobreza. Todavia, o acesso a terra e a outros bens materiais muitas vezes contribuíam para afastar os membros do clero da vida espiritual. Casos de corrupção tornaram-se comuns dentro da Igreja, padres eram casados ou tinham amantes, cargos eclesiásticos eram vendidos, pontífices eram trocados ou assassinados com base nos mais variados interesses particulares, etc. Episódios como esses abalavam a imagem da Igreja e levaram alguns de seus membros a fazerem uma autocrítica acerca dos hábitos dos integrantes do clero. Na França, os monges do mosteiro beneditino de Cluny, por exemplo, realizaram uma reforma monástica. 

Em 1059, o Concílio de Latrão determinou o celibato dos padres, bem como uma maior autonomia por parte da Igreja. A partir disso, ficou definido que os reis só poderiam indicar bispos após autorização prévia por parte do papa. Além disso, estabeleceu-se que o papa seria eleito por um colégio de doze cardeais e não mais por imperadores ou reis. Alguns anos depois, em 1075, o papa Gregório VII publicou uma bula segundo a qual a Igreja tinha o direito de derrubar imperadores, o que na prática significa que a Igreja deveria ser obedecida por todos. Aqueles que eventualmente desobedecessem a Igreja poderiam sofrer a excomunhão. Emblemático na época foi o caso de Henrique IV, imperador do Sacro Império Romano-Germânico que, após tentar depor o papa, foi excomungado e acabou tendo que pedir perdão a Gregório VII.

Outro exemplo do tamanho da influência do pensamento religioso e da Igreja Católica na sociedade medieval está nas Cruzadas, expedições militares organizadas com o objetivo de retomar a cidade de Jerusalém do domínio muçulmano. Ao longo do tempo, várias Cruzadas foram realizadas e elas ocorriam tendo em vista objetivos não só religiosos, mas também políticos e econômicos. Com as Cruzadas, a Igreja objetivava aumentar ainda mais sua influência. Os nobres viam naquelas expedições uma oportunidade de conquistar terras e riquezas. Por sua vez, os comerciantes queriam reabrir o comércio no Mediterrâneo, que estava sob domínio muçulmano, e os camponeses buscavam conquistar sua liberdade. As Cruzadas não permitiram que os europeus recuperassem Jerusalém de maneira definitiva, mas contribuíram para estimular o comércio e trazer riquezas para cidades como Veneza e Gênova, além de fortalecer a figura do cavaleiro medieval.

Mapa mostrando os caminhos das Cruzadas. Imagem da internet.

As Cruzadas eram realizadas com base no discurso segundo o qual era necessário que os católicos "combatessem os infiéis". E por parte da Igreja, tal "combate" não ocorreu apenas por meio das Cruzadas. Em 1233, o papa Gregório IX criou o Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição, que tinha como função perseguir e punir pessoas acusadas de praticar as chamadas heresias. A partir de 1252, o papa Inocêncio IV autorizou o uso de tortura como método para se obter confissões nos processos contra as heresias.